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JUAZEIRO DO NORTE - CE
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O Think Tank da Metrópole do Cariri

Capa 24/09/2017 Edição 437

ACADEMIA DO RÁDIO

Quando o rádio surgiu no Brasil, há quase 100 anos, começou desfraldando a bandeira da educação e da cultura. Assim foi a primeira emissora brasileira, Rádio Clube de Pernambuco-PRA-8, inaugurada no Recife, em 6 de abril de 1919, por Joaquim Augusto Pereira, com programação de qualidade ao gosto europeu e exigente da elite pernambucana. E principalmente a segunda, Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, que nasceu, literalmente, dentro da Academia Brasileira de Ciências. Graças ao presidente dessa entidade, Dr. Henrique Morize , contagiado pelo entusiasmo dos companheiros Roquette Pinto, homem de larga visão empresarial, Miguel Osório, Álvaro Alberto e outros,foi inaugurada,na sede da ABC, em 20 de abril de 1923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro-PRA-2,com um transmissor doado pela Casa Pekan, de Buenos Aires. Durante seus primeiros dez anos de existência, a Rádio Sociedade do Rio foi uma emissora eminentemente cultural, irradiando poesia, literatura, ciência e música de concerto.Então, Roquette Pinto, médico, antropólogo e professor, definiu: "O rádio é a escola dos que não têm escola. É o jornal de quem não sabe ler; é o mestre de quem não pode ir à escola; é o divertimento gratuito do pobre; é o animador de novas esperanças, o consolador dos enfermos e o guia dos sãos - desde que o realizem com espírito altruísta e elevado". Em dois anos (1923- 1924) já eram muitas as emissoras em operação no Brasil: no Rio Grande do Sul, a Rádio Sociedade Gaúcha; em Minas Gerais, a Rádio Clube Belo Horizonte; em Curitiba, a Rádio Clube Paranaense; em Salvador,a Rádio Sociedade da Bahia; em São Paulo, a Rádio Clube São Paulo e a primeira emissora do interior do Brasil, a Rádio Clube Ribeirão Preto. Até os anos 30 do século XX, o rádio expandiu-se por todo o país, transmitindo música, sobretudo erudita, e informação, entrevistas, recitais , etc. Com o início da comercialização e da receita de publicidade, a partir de 1932, as emissoras começaram a investir na contração de artistas e cantores, que logo se tornaram ídolos e mitos populares. Deu-se assim o início da guerra por audiência, mas Roquette permaneceu inflexível não admitindo a propaganda como solução para sua rádio que não queria que fosse sinônimo de lucro, mas de educação. Era tão forte esse sentimento em Roquette Pinto que ele doou ao Governo a sua emissora que passou a ser

chamada de Rádio Ministério da Educação, em 7 de setembro de 1936.No Ceará, convicto adepto da máxima de Roquette Pinto, mas sem restrição comercial, Menezes Barbosa procurou colocar antena da Rádio Progresso do Juazeiro, desde o início em 1º de maio de 1967, portanto há 50 anos, direcionada para a educação e a cultura. Pondo em prática o modelo de Roquette Pinto, Menezes Barbosa dedicou atenção especial ao programa "Colégio do Ar" transmitido em cadeia com as ondas curtas da Rádio Ministério da Educação. Era um programa que vinha dos anos 50, criado pelo Serviço de Radiodifusão Educativa, que passou a cuidar de um broadcasting de qualidade com divulgação científica e literária e até aulas de ginástica, cursos de alemão, francês, inglês e língua portuguesa. De responsabiliade do governo federal, o programa tinha por finalidade educar pessoas jovens e adultas fora da escola. Era transmiido após a "Hora do Brasil".Embora a Rádio Progresso fosse uma emissora privada e comercial, Menezes Barbosa só compreendia o radio na sua função plena como sinônimo de educação. Ele sabia que "o Colégio no Ar" era um programa de indiscutível qualidade e benefício para jovens e adultos de comunidades pobres do Vale do Cariri que nao haviam tido a chance de aprendizagem na escola. Esse programa existiu até 1970 quando foi substituido por outro programa educativo da Rádio MEC,denominado Projeto Minerva, com este nome em homenagem à deusa romana da sabedoria. Como o Colégio do Ar, o Projeto Minerva pretendia: Contribuição para renovação e o desenvolvimento do sistema educacional e para a difusão cultural, conjugando o rádio e outros meios; Complementação ao trabalho desenvolvido pelo sistema regular de ensino; Promoção da educação continuada; Divulgação de programação cultural de acordo com o interesse da audiência. Produzido em convênio com a Divisão de Ensino Secundário do MEC, o Colégio do Ar conferia anualmente centenas de diplomas a jovens e adultos. Com isso, Menezes Barbosa reforçava o seu propósito inicial de oferecer aos ouvintes da Rádio Progresso do Juazeiro, uma Emissora Caririense de Educação e Cultura. O diretor da Rádio Progresso tinha em mente a mesma crença do renomado educador pernambucano Paulo Freire: " Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda". Assim, na Rádio Progresso, as Crônicas diárias de Menezes Barbosa, eram expressão

 

Foto: Menezes Barbosa e a Rádio Progresso-Juazeio

autêntica de pedagogia da liberdade. da solidariedade e da fraternidade. As noites seresteiras puxadas pelo violonista Carlos Macedo, cercado pelo povo na rua sob a luz das estrelas no céu do Juazeiro, eram páginas sonoras de história da Música Popular Brasileira. O amanhecer na emissora era com os poetas populares Pedro Bandeira e João Bandeira saudando a beleza da alvorada sertaneja. Com sua voz vibrante, o âncora Carlúcio Pereira conquistava e fidelizava a audiência parecendo locutor da "Voz da América". Os programas jornalísticos eram sóbrios e sérios ultrapassando os limites da informação e buscando a formação coletiva. O "Repórter Cariri", sob a direção de Jota Alcides e apresentação de Geraldo Batista era um modelo regional do "Repórter Esso", o mais famoso noticiário radiofônico do mundo. A programação musical de Wilton Bezerra não tinha funkaria nem baixaria, só músicas de qualidade e bom gosto. Com seus flagrantes sociais, José Carlos Pimentel estimulava as mocinhas do Juazeiro ao culto da elegância, da beleza e da educação social. Os programas de Jovem-Guarda de João Sobreira, Aguinaldo Carlos e Campos Júnior eram guias da juventude saudável."A Face do Mistério", atração assinada por Menezes Barbosa, era um show de dramaturgia. Até programas policiais, como "Delegacia das Lamentações", com o professor Valter Barbosa, e esportivos, como "Batendo Bola", com o cronista Wellington Amorim, eram educativos formando cidadania. Menezes Barbosa deixou a direção da Rádio Progresso em 2007, depois de 40 anos no cargo. Mas os anos dourados da Rádio Progresso do seu tempo permanecem inapagáveis e insuperáveis. Por sua programação de qualidade, a Rádio Progresso, com uma equipe talentosa e valorosa, sob a direção intelectual, artística e filosófica de Menezes Barbosa e a inspiração da Radio MEC, impôs-se como Academia do Rádio Caririense, e exerceu grande e decisiva influência em todos os campos do Juazeiro, econômico, político, social, religioso, cultural, artístico, desportivo e educativo Hoje, 50 anos depois, Juazeiro, além de mais vigoroso e poderoso centro comercial e industrial fora da capital, é o maior centro educacional e cultural do interior do Ceará, inclusive sede da Universidade Federal do Cariri. Graças à valiosa contribuição da Rádio Progresso, efetivamente indutora e propulsora de notável processo de mudança, que gerou transformação e civilização na sociedade do progressista e glorioso Juazeiro.. .

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*Jota Alcides, jornalista e escritor, é autor de "PRA-8 O Rádio no Brasil" e "O´Último Repórter Esso".

 



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