| |
Principal
cidade do Vale do Cariri, segunda maior do Ceará e uma das mais importantes
do Nordeste brasileiro, Juazeiro do Norte tem sua história profundamente
vinculada ao seu fundador e maior benfeitor, Padre Cícero Romão Batista.
Entre os dois há simbiose indestrutível e, surpreendentemente, cada
vez mais forte. Juazeiro é do Padre Cícero. Padre Cícero é do Juazeiro.
Por isso, é conhecida no Brasil e no exterior como "Cidade do Padre
Cícero". Ordenado sacerdote em 30 de novembro de 1870, em Fortaleza,
Padre Cícero chegou ao Juazeiro ao final de dezembro de 1871, convidado
pelos moradores, para celebrar a Missa do Natal. Quatro meses depois,
em abril de 1872, deixou o Crato, sua terra, onde morava, e se fixou,
definitivamente, no Juazeiro, como capelão. Era, então, um pequeno
lugarejo, de mais ou menos 30 casas, quase todas de taipa e cobertas
de palha, apenas seis cobertas com telhas. Mais ou menos, uns 100
habitantes. Alguns frondosos pés de juazeiro davam sombra e descanso
para viajantes do Piauí e Ceará de passagem pelo Cariri na direção
da Paraíba, de Pernambuco e das Alagoas. Como referência, o povoado
tinha uma capela dedicada à Nossa Senhora das Dores, construída pelo
primeiro capelão, padre Pedro Ribeiro de Carvalho. Mas, ponto de passagem
de tropeiros e andarilhos, aos poucos, Juazeiro foi recebendo e abrigando
desordeiros que ali criaram um ambiente de promiscuidade. Depois de
um sonho, em que Jesus Cristo lhe apareceu pedindo para "cuidar dessa
gente", Padre Cícero assumiu o desafio de transformar e civilizar
o Juazeiro. Começou seu apostolado ensinando o povo a rezar o Rosário
de Nossa Senhora das Dores e estimulando a adoração ao Sagrado Coração
de Jesus. Deu um rumo ao povoado sob lema beneditino: oração e trabalho.
Para isso estabeleceu: "Cada casa uma oficina, cada oficina |

um oratório".
Quando Juazeiro já tinha uns 500 habitantes, em 6 de março de 1898,
primeira sexta-feira da quaresma, aconteceu o fenômeno que mudou
para sempre a história do Padre Cícero e do Juazeiro: na missa das
5 horas da manhã, quando deu a comunhão à beata Maria de Araújo,
a hóstia se transformou em sangue na boca dela. Mistério sem resposta,
nem da medicina, virou um fato milagroso que se espalhou rapidamente
por todo o Nordeste. Juazeiro se tornou centro de peregrinações
e Padre Cícero passou a sofrer um verdadeiro martírio, massacrado
por sua própria Igreja. Com inveja do prestígio e da popularidade
do Padre Cícero, o arrogante dom Joaquim Vieira, segundo bispo do
Ceará, começou a perseguí-lo. De tal modo, e tão inescrupulosamente,
que rejeitou as provas do milagre assumidas pela primeira comissão
de investigação, providenciou uma nova comissão que preparou um
relatório encomendado negando o milagre e contra Padre Cícero. Mandou
tudo ao Vaticano. Desde então, o capelão do Juazeiro não teve mais
sossego. De ordens suspensas, em 1898 Padre Cícero foi até Roma.
Recebeu bênção e autorização do papa Leão XIII para voltar a celebrar.
E pediu ao Papa, devidamente argumentada e justificada, a criação
da Diocese do Cariri, sediada no Juazeiro, já o maior aglomerado
urbano do interior do Ceará. Mas, voltando ao Juazeiro, o autoritário
dom Joaquim Vieira não cumpriu a determinação papal. Pelo contrário:
manteve a suspensão doPadre Cícero e enviou documentos ao Vaticano
solicitando a criação da
|
Diocese no Crato somente para contrariar, perturbar e atormentar ainda
mais a vida do capelão do Juazeiro. Com apoio do dom Quintino de Oliveira,
primeiro bispo do Crato, dom Joaquim Vieira desempenhou, de maneira
violenta e implacável, o papel de principal algoz do Padre Cícero,
vítima da intolerância, da arrogância, do autoritarismo, da injustiça
e da inveja. Foi assim até a morte dele em 1934, quando 60 mil pessoas
estiveram em seu enterro no Juazeiro. Como recompensa pela humilhação
que lhe impôs a sua própria Igreja, o Nordeste passou a aclamá-lo
como verdadeiro santo, padrinho e patriarca. Mais famoso e mais amado
sacerdote brasileiro da Igreja Católica, é uma das personalidades
mais biografadas do mundo, ocupando mais de 300 livros. Gratidão do
povo em forma de concreto, sua estátua de 27 metros de altura erguida
no ponto mais alto de Juazeiro do Norte é celebrada como a segunda
maior do Brasil e terceira do mundo, depois do Cristo Redentor, no
Rio de Janeiro, e da Estátua da Liberdade, em Nova Iorque. Seu verdadeiro
milagre é absolutamente incontestável: transformou o pequeno, pobre,
miserável e abandonado Juazeiro de 1872 na segunda maior cidade do
Ceará, com quase 300 mil habitantes em 2008, maior centro comercial
e industrial do Nordeste Central do Brasil e principal centro do catolicismo
popular na América Latina, recebendo 2,5 milhões de visitantes ao
ano. Por iniciativa do papa Bento XVI, que pretende anular a arbitrariedade
do Bispado do Ceará e da Igreja contra o Padre Cícero no passado,
corre no Vaticano processo para reabilitação dele, primeiro passo
para sua posterior beatificação e possível canonização. Em 2001, Padre
Cícero foi eleito, em votação popular, livre e democrática, o "Cearense
do Século XX". |
|