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JUAZEIRO DO NORTE - CE
JUANORTE
O Think Tank da Metrópole do Cariri
Capa    23/07/2017  Edição 429

MEU PADIM FOI P'RO CÉU

Se para a história pátria a década de 1930 trouxe profundos impactos, mudanças e transformação políticas e econômicas com a Revolução de 30 que levou Getúlio Vargas ao poder, a convocação da Assembleia Constituinte de 1933 e depois a implantação do Estado Novo com golpe de Estado,no Juazeiro também ocorreram um conjunto de fatos e de acontecimentos de grande significado social. A década de 1930, para a história do Juazeiro, principia com a morte, em 29 de dezembro de 1929, de Dom Quintino, primeiro bispo da diocese do Crato, colega de sacerdócio do Padre Cícero, com que o Patriarca de Juazeiro manteve até uma certa relação de amizade, mas que foi delegado intransigente em impor todas as sanções impostas pelo Vaticano constituindo-se em verdadeiro adversário do movimento religioso de Juazeiro.Se as perseguições eclesiásticas contra o Padre Cícero revestidas de nuanças dramaticamente trágicas, mesmo conduzidas por alguém que lhe tinha um grande respeito e elevado grau de amizade desde os tempos de juventude, o que haveria de esperar o Patriarca da vinda de um novo bispo, que provavelmente não tivesse qualquer envolvimento com as dramáticas realidades vividas pelos sertanejos perdidos por estes sertões adustos castigado pelas secas e pelo abandono de todas as políticas públicas do governo brasileiro. Essas inquietações afligia o cansado, sofrido, mas generoso coração do Patriarca do Juazeiro.Os revolucionários de 30 marcharam contra Juazeiro impelidos por ódios, nascidos e nutridos, na

sistemática campanha propalada pelas elites urbanas e pela própria Igreja Católica de que Juazeiro era um covil de bandidos e jagunços e que o Padre Cícero era o coronel-chefe dos sertões e protetor de cangaceiros e criminosos. O Batalhão 44 de Infantaria do Exército Brasileiro, sediado no Recife, marchou contra Juazeiro como estivesse indo invadir fortalezas inimigas fortemente armadas, cantando hinos virulentos de ódios contra o Padre Cícero. No Juazeiro, os Tenentes de 30 não respeitaram nem as cãs sagradas do velho Patriarca. Invadiram sua residência com truculência impensável, revistando todos os cômodos da casa do Padre Cícero à procura de armas. Subiram a Colina do Horto supondo que lá estivesse escondido um poderoso arsenal de armamentos pesados que eram repassados aos grupos de cangaceiros. Nada encontrando, fustigados por solertes denúncias subiram a Serra do Araripe supondo os revolucionários que o Caldeirão do Beato José Lourenço fosse um centro de treinamento de bandidos. No Caldeirão, também, os Tenentes da Revolução só encontraram rosários, enxadas, pás, foices, rastelos e martelos. Juazeiro é terra do trabalho e da oração. Armas e arsenal bélico só existiam nas denúncias caluniosas do inimigo do Padre Cícero. O Comandante do Batalhão 44 de Infantaria, sediado no Recife, frustrado em sua presumível missão bélica de apreender farto arsenal de armas cometeu a infâmia de determinar que
Foto: Multidão no enterro do Padim
o "interventor" municipal retirasse "o retrato do Padre Cícero do quadro de honra da Prefeitura e o devolvesse ao seu dono como sinal dos novos tempos implantado pela Revolução de 30.Registra a história que o Padre Cícero recebeu o jovem tenente portador do seu retrato e o interventor municipal, recém-empossado, com amabilidade e cortesia e fez apenas um comentário:- " Fizeram bem em recolher este velho retrato, meu filho. Já vieram me contar que em quase todas as lojas e residências têm um quadro meu na parede... Isso parece demais para um padre velho e alquebrado..." Somente a destituição pela Revolução de 30 de José Ferreira de Menezes, um dos seus amigos mais próximo, seu competente secretário e assessor em negócios jurídicos magoou o coração do Patriarca de Juazeiro. O estado de saúde do Padre Cícero já preocupava a todos porque foram surgindo várias e graves complicações. Grupos de romeiros se revezavam todos os dias, quer na porta de sua casa quer aos pés do altar da Matriz de Nossa Senhora das Dores, implorando a Deus que restabelecesse a saúde do Padim de todos os sertanejos.Na madrugada do dia 20 de julho de 1934, o alquebrado organismo não mais resistiu e a alma do Nosso Padim subiu p'ro céu para continuar intercedendo por todos os romeiros, pelos sertanejos, pelos seus devotos principalmente aqueles mais humildes e pelo Juazeiro..
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